Daggi Dornelles

PROJETO:

Cor Veste Cidade – não sei se ouço quadros, ou vejo contos…

O uso da cor, em quadros monocromáticos, pintados sobre tela
urbana, por objetos, tecidos e corpo.

ESTRATÉGIA DE AÇÃO:
Como na experiência de “o passar em branco – poemas urbanos”, a ação é inspirada pela cidade e suas “vozes/falas/sinais”. A observação atenta gera a composição, como se o corpo se submetesse a apelos do meio e seus constituintes. Aqui, ao invés de simples passagens, pretendo investigar as possibilidades do corpo urbano enquanto tela por onde vazam quadros em horizonte aberto, o deslimite, e o aflorar de imaginários produzidos por estas pinturas que, ao contrário do “passar”, se estabelecem por instantes, transgredindo a tela dos dias e sua aparente estabilidade confusa, lotada e cinza. A estratégia é a mesma: passar, ouvir, encontrar, deixar o instante criar. Mas se, lá, a constante instabilidade produzida em tato gerava um mover constante, aqui, o quadro tem a liberdade de descansar sobre a cidade.

O material é ambulante, sendo carregado no mesmo carro/parceiro. Apenas o figurino troca de cor, a cada dia, conforme a opção de cor.

LOCAL:
Largo Glênio Perez e escadarias Viaduto da Borges de Medeiros

Daggi Dornelles [São Leopoldo – RS]

Realizou seus primeiros trabalhos de arte como atriz. Passou a dedicar-se à dança nos anos 70. Viveu em São Paulo, na década de 80, tendo trabalhado ao lado de expressivos profissionais da cena nacional. Foi neste período que iniciou estudos de movimento a partir da relação entre o corpo e objetos banais de uso cotidiano.

Mudou-se para a Alemanha, em 1989, tendo permanecido no país por 14 anos.
Trabalhando em trânsito por vários países Europeus, e com constantes vindas ao Brasil, o estudo foi incorporando influências de várias culturas, e crescendo em densidade, ao lado do desenvolvimento de uma carreira solo como bailarina, e do desempenho de funções diversas em produções, companhias e escolas.

Em 1999, através da Bolsa Virtuose, do MinC, e de uma residência na Folkwang
Hochschule-Essen, Alemanha, o estudo ganha novas proporções, sob a orientação de profissionais de áreas diversas, desenvolvendo-se em um método de preparação para o encontro das “coisas e ambientes constituintes do mundo”, estes, tomados como corpos de naturezas diversas. Após o período de 15 meses, passa a chamar-se “encontros do corpo”, e desloca-se definitivamente para o espaço urbano, tendo sua primeira experiência de longa duração no espaço da kulturbrauerei, em Berlin, no ano de 2002.

Em 2003, a Bolsa VITAE de Artes promove a continuidade do trabalho, em um projeto de 15 meses na cidade de Porto Alegre e arredores. Este, tomando a cor branca feito tinta de “esvaziar” cidades, buscava pausas e quietudes por atos de encontro conduzidos pela escuta dos lugares. Após o período da bolsa, a ação foi levada a várias cidades do Brasil e da Alemanha, com participação em festivais e eventos diversos. Em 2009, o trabalho recebeu o Prêmio Funarte Artes Cênicas na Rua, para a área de registro e memória.

Durante os anos de carreira, além do desenvolvimento de seu próprio trabalho em arte, Daggi Dornelles foi professora de várias escolas, companhias de dança e instituições de ensino. Desde 2008, integra a equipe da Cia. Municipal de Dança de Caxias do Sul.

LINKS:

o passar em branco – poemas urbanos
http://www.youtube.com/watch?v=q9h4h5E79yc

Trânsitos 2007 – 30 anos de dança de Daggi Dornelles
http://www.youtube.com/watch?v=AYPVegENXZA

Registros de imagem de trabalhos para palco e rua:
picasaweb.google.de/frank.jeske

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SOBRE A EXPERIÊNCIA_SEU:

Cor Veste Cidade – não sei se ouço quadros, ou vejo contos… o uso da cor, em quadros monocromáticos, pintados sobre tela urbana, por objetos, tecidos e corpo.

Desvendando cores sobre “o passar em branco – poemas urbanos”.

21 de junho de 2010
As passagens “em branco” tiveram início em 2002, em Berlin, e dali seguiram,
desdobrando-se por territórios urbanos. Não ousava imaginá-las em cor. E deixarei que assim permaneçam: o passar será sempre em branco!

Entretanto, este momento – corpo, cidade e SEU – me levou a sonhar cores. A cor de vestir o instante de um corpo/cidade. E o primeiro instante fez-se vermelho de encarnar tempo e lugar.

Inicialmente, imaginei quadros ativos, ações embrulhadas em monocromático
momento. Tinha receios! Os brancos me pareciam revoltados, diante da perspectiva de me envolver com encarnados.

Levando esta bagagem, em sensação e cor, fui para as ruas.

Meu primeiro momento coincidiu com o último passar em branco, em abril deste
mesmo ano, sobre os pequenos cimentos em frente ao Mercado Público. Ali, o
público é o melhor do instante. Aliás, nas ruas, os corpos humanos são a matéria
mais preciosa da performance. A riqueza é deles; de minha parte, apenas confirmo a pobreza das paredes de meus isolamentos.

Todas as previsões de cena se diluíram. A alma dos tecidos brancos animou-se
com força ainda maior em lentidão e tato. Sentia-me em estado de receio que se
estabeleceu sobre o instante como freio. Os freios de um território compartilhado.

O engraxate Azul ficou ao redor hipnotizado. Os corpos fecharam o cerco, como
em branco nunca o fizeram. Fascínio encarnado, excitação da cor? O entorno ativo, contrastando com a contemplação aberta pelos brancos provocada. As pessoas, o maior encanto deste ato. O tanto que me tocam com seus olhos e peles escancarados.

O homem que fala com Camila. As considerações que faz. A menina que repete a
palavra indecifrável, que se aproxima ao final a observar meus olhos e duvidar da
veracidade de sua cor. Os tantos olhos fixos, suas faces que me fascinam em enigma.

O moleque que me aborda e entra em cena. O homem e seu murmúrio que me acolhe ao dizer: que satisfação! Satisfação a minha de ali estar, em corpo inteiro, neste lugar de tantas fugas.

Na esquina democrática, o ambiente faz-se tenso. A democracia, como a fazemos, parece-me tensa. O demo espaço/tempo onde todos ditam suas ordens. A tudocracia da quietude e do recuo muito mais me anima, em sua postura da política de ninguém e por todos. Ali, na esquina, o ambientalista esbravejou meu não-direito de vestir a árvore. Eu estaria maltratando o ambiente: disse a ele que fosse cuidar dos reais maus tratos, especialmente os administrativos. A moça de cor morena me deu aval: “é bom. Assim, vestidas, são vistas as árvores que ninguém mais vê.” O paisagismo daquele senhor desejava minha ausência. Desafiei seu desejo e segui, a encarnar a paisagem.

A homarada ria nervosa. E eu seguia, em carícias encarnadas! Permeando os risos, o ato em discussão. Vermelha, revoltada, aos olhos deles, sou protesto não identificado.

Borges acima, viaduto de arquitetura preciosa revestida em excrementos. A esquina das frutas que tantas vezes encontrei. Escorrego em paz! Ao final da murada, uma mão me espera. Toco-a, e a emoção faz sorrir o homem magro, pés quase descalços, boca quase sem dentes. Olha-me e aplaude. Quer uma foto, está feliz e encantado. Por muitos anos, foi bombeiro. Hoje, cuida da pedra do rio, atrás do Gasômetro, para evitar que tomem banho. Tira do interior da jaqueta um álbum de fotos, registros de vida: o bombeiro, a pedra do rio, a história de um corpo errante. Selamos o compromisso de um encontro, em julho, na pedra do rio.

Sigo o fluxo, pelas vias da cidade em trânsito, até o QG da venezianos. Não tenho a paz que o branco sempre traz. A cor! O que é um corpo que troca de cor? O que é o lugar em outras vestes? Sei que o abandono temporário dos brancos é simples voz de um desafio que acena. Nesta tarde, fez-se o pacto que me levará por outras buscas de tatuar epidermes de cimento em cidade. A cor… vestirei as primárias, em insistentes anos de escutar quadros urbanos, em tempos talhados nas visões dos contos de tecer histórias de uma fada Cidade!

Daggi Dornelles (performance e texto)
Frank Jeske (imagens)
Flores urbanas – estudos do corpo em arte e humanismo

Uma resposta para “Daggi Dornelles

  1. que lindas imagens me trazes nestes seus descritos …inspirações…. e outras tantas coisas….e que pude dalí compartilhar. um beijo.

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