Maíra Vaz Valente

PROJETO: 1:1 versão Amarelo
O projeto é uma experiência que através de um dispositivo, denominado Conector Amarelo, há uma proposta de interação entre sujeitos. Os participadoes da expeiência construirão conjuntamente seu percurso. O Conector Amarelo revela e enfatiza a relação dos corpos, tornando a mesma como ponto central para a construção da obra. A negociação se dá em tempo real, tornando-se parte da própria experiência performática 1:1 versão Amarelo.

ESTRATÉGIA DE AÇÃO:
A partir de convite, o público participador deve entrar em contato com a artista (a combinar com os organizadores da mostra a melhor forma) para realizar a experiência. Sugere-se alguns prévios agendamentos, no entanto, não é necessário. Estratégias como cartazes ou divulgação entre os participantes da mostra são recomendados. O ‘Conector Amarelo’ será feito de tecido da cor amarela, preferencialmente, de forma a se moldar aos corpos e que seja adaptável às diversas situações. Os corpos estarão separados por uma distância de dois metros como mostra a imagem a seguir:
A duração das experiências pela cidade será negociada. O limite geográfico deve ser a própria cidade. Os riscos são mínimos, mas de responsabilidade da dupla (artista-propositor). Devem ser medidos durante a experiência. 1:1 (versão em Amarelo) se pretende como uma situação performática que gera um encontro
com direto com a obra. Outro ponto que a experiência permite é um mapeamento, através das vivencias, das possíveis relações inter-pessoais de um encontro entre artista, público e obra. É fundamental que o projeto seja circunscrito no âmbito das descobertas conjuntas (propositor e participador) dos procedimentos poéticos gerados a partir dos encontros. Confunde-se, portanto, nessa proposta relacional a natureza da criação e da experimentação de uma situação que se torna, ao ser concluída, numa experiência-obra. A cor amarela do Conector Amarelo permite evidenciar a dimensão visível das relações construídas nessa vivência: distanciamentos e proximidades, formas de interação com o espaço durante o percurso. Nessa conexão entre corpos, visto por um outro público, aquele que vê a relação, pode apresentar as outras infinitas relações que a experiência primeira (artista e participador) pode gerar no espaço em que manifesta.

O espaço público se torna fundamental, pois ele permite a interação com outros que podem até mesmo não reconhecer aquilo como experiência artística. A paisagem e cartografia da cidade também são incorporadas, enquanto a situação se estabelece, afetando e propondo a relação.

Início pela manhã do primeiro dia e terminar às 23h59 do segundo dia

Maíra Vaz Valente [São Paulo – SP]
Interesso-me pelo campo das práticas performativas, tendo sido co-autora do grupo de estudos Núcleo Aberto de Performance (NAP), busco referÍncias e parceiros para uma pesquisa acerca da performance nas artes visuais. Em minha trajetória, lancei-me ao mundo na tentativa de compreende-lo, evidenciando ou re-significando minhas relaÁıes com o outro e o espaÁo-tempo que me cerca. Através de mínimas ou silenciosas aÁıes, nos campos da Arte e da Vida, busco resistir a uma realidade insistente, a qual afasta e aproxima sujeitos que a habitam.

LINKS:
http://www.youtube.com/titavaz
http://www.youtube.com/titavaz#p/a/u/0/91eCVEqNjJw

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SOBRE A EXPERIÊNCIA_SEU:

Alguns registros da experiência 1:1 versão Amarelo

SEU Semana Experimental Urbana – Porto Alegre

Segunda-feira, 20h02

Quando David desvestiu o Conector Amarelo, eu me vi só.

Divorciada foi a palavra usada por Milena em seu registro ao se referir sobre o momento da separação entre nós. A ligação estabelecida pelo Conector fora desfeita para dar espaço a outro que participaria da experiência.

Pausa para uma pequena solidão.

Não haveria outro corpo para vestir o Conector comigo. Era sensação de vazio. Espaço para a memória do outro: das proximidades e distanciamentos, das negociações e proposições. Tornou-se em situação-obra. Intervalo calado. A escrita é, por hora, a cordura de algumas das imagens captadas por minha câmera fotográfica que pouco podem traduzir o que foi vivido através. Escolho fazer um breve relato. Elaborei algumas das notas feitas durante o trabalho num pequeno caderno que carregava comigo.

Vânia, a primeira a disparar a relação compartilhada, explodiu em alegria. Dançou. Para mim era forma sem a necessidade de ensinar regras, como uma semelhante sensação de mãe ao ouvir a primeira palavra falada de seu filho, o Conector Amarelo ganhava vida. Fez-se livre a experimentação. Era um misto de intimidade e exposição. Em Porto Algre, foram: Vânia, Manuela, Guilherme, Ari, Ronaldo, Marcela, Milena, David, Zé, Nicolas, Andréa, Lourival, Rodrigo, Ana, Flor, Abel, Wolder, outros e tantos outros entre todos.

No projeto: um encontro entre propositor e participador através da uma experiência. Conector Amarelo é objeto feito de cetim. Objeto criador de situação, proponente de relações: danças, conversas, olhares, perguntas, histórias, música, proximidades, afetos, brincadeiras, outras tantas. Investigação performática em que a interação entre sujeitos propicia  Situação-Obra como uma Situação-Vida entre vidas à Uma possibilidade de relação entre sujeitos.

O Amarelo pôsme em desconforto e em estado de atenção. Era somente vestir o outro que o Conector iluminava a cumplicidade íntima de um casal espontâneo instigando olhares a volta de um por vir. Envolvida pelo Conector, queria expandir, queria propor ao outro a co-criação. A situação, para mim, possibilitava a construção de espaço ficcional em ambiente aberto. Uma nesga fantasiosa que se abria no cotidiano: uma imagem de duas pessoas ligadas pela cor amarela.

Seria possível, em nossa passagem, imantar ou tencionar a própria cidade? A cor travestida ao menos gerou curiosidade. Palavra ou olhares, e pra quê?

Sujeito/sujeito; e cada qual com alguma vontade.Eram sujeitos propositores de diálogo interno. Uma conexão em que a experiência é o encontro. Buscar em si o outro para se tornar um eu a partir de uma relação com o outro. Afinal mas o que se pode quando um está ao lado de outro?

Segunda-feira, 15h34

Guilherme, 25 anos, morador das ruas próximas ao Mercado Municipal, pensando ser teatro perguntou o horário do início da peça. Tão logo soube já que sua presença era início de coisa qualquer. Provavelmente não sabia o que disso esperar e ficou entusiasmado  quando recebeu de Manuela o Conector. Ele se apresentou estranhava e perguntava o que acontecia, e assim percebeu que outras intervenções nos cercava, éramos uma delas. Estávamos no Largo Glênio Peres, onde cotidianamente havia manifestações diversas e nesse dia, as outras poposições do SEU se sobrepunham ao cenário conhecido. Estava interessado no Conector Amarelo. A conversa seguiu e para sua vivência com a rua. Os companheiros de Guilherme se aproximaram, e um longo bate papo sobre todos eles se estabeleceu. Queriam ser ouvidos, falar de seus feitos: uma banda de rock, ou um grupo de dança hiphop ou de teatro, família, filhos, dificuldades da vida. Queriam falar dela: vida!

Ari, um  senhor de quase 70 anos de idade, esticou os ouvidos em nossa conversa, perguntou o motivo das vestes. A roda se dissipou e Ari insistia que aquilo seria uma fantasia, pois justificava: “não é roupa de costume”. A dança reapareceu. O jovem e o velho gostavam de dançar: Hiphop e tango. O primeiro se dedicou até se machucar e o outro, dizia que há dez anos entrava no salão com a mesma parceira criando suas coreografias. Pois Guilherme se impressionou, porque porque não sabia que poderia criar dançando. O menino encantou-se com o velho e eu, ainda junto permaneci invisível. Conector Amarelo tornara-me em uma intersecção de realidades qualquer.

Marcela, a minha companhia mais duradoura daquelas primeiras horas de um ambicioso projeto. Levou-me para passear pela cidade. Tomamos um café. Seguimos para o Viaduto Borges de Medeiros. Assistiríamos a PSY-SOMA de George Sander. Encontramos Milena e David. Marcela se despediu. Milena pediu para vestir. E depois, já com David corremos os corredores do viaduto abaixo. [uma pausa] Escrevi em meu caderno e antes de partir. Zé se encorajou. Caminhamos e nos juntamos aos outros propositores do SEU em direção a Cidade Baixa, Travessa dos Venezianos. Zé arriscou e o Conector Amarelo virou samba, tornou-se dança!

Terça- feira 22 de junho de 2010 , 15h31.

Após 12horas a experiência já criava um extenso campo de possibilidades. A potência daquele objeto mole se revelava – ao menos para mim. Chamado de roupa-fantasia, aproximado à Capa Parangolé de Helio Oiticica. Percebia que muitas das experiências criadas, tidas ou descobertas performavam a memória dos que se vestiram com o Conector. Poderia anunciar uma criação em movimento. Instauração de processos transformadores conjugados em experiência quaisquer de um cotidiano compartilhado.

Quarta-feira, 23 de junho, 19h27

Desgrudei-me do objeto. 1:1 ganhou autonomia. Outros casais foram convidados a vestirem o trabalho, afastei-me. O intento se mantinha na medida que cada par propunha uma conexão, uma forma de uso qualquer do Conector. Para mim, esse momento era como estar com o outro em prolongamento. 1:1 versão Amarelo é obra de arte disfarçada de brincadeira, de risada, de encontro de coisa qualquer. A proposição performática acontecia na existência com o outro, sem curso determinado nem nomenclatura pré-estabelecida de um agora em transformação.

Quinta-feira, 24 de junho, 2h03

O objeto se apoderou de corpos Sujeitou situação. Propositores e participadores ou participadores-propositores de espaços entre espaços. O encontro através do Conector Amarelo é ponto central de uma transitória possibilidade poética.

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